Greve dos caminhoneiros de 2018: os 10 dias em que o Brasil parou
Em maio de 2018, caminhoneiros cruzaram os braços, e em poucos dias faltou combustível nos postos, querosene nos aeroportos e ração nas granjas. A greve custou bilhões, derrubou o presidente da Petrobras e deixou uma herança que ainda define o frete no Brasil: a tabela de piso mínimo da ANTT. Esta reportagem reconstitui os fatos com dados oficiais e mostra o que mudou até 2026.
- 1. O estopim: diesel em alta e preços diários
- 2. Cronologia: de 21 a 31 de maio de 2018
- 3. O país sem diesel: impactos medidos
- 4. O acordo: R$ 0,46, MPs e subvenção
- 5. Lei 13.703: nasce a tabela do frete
- 6. As ADIs no STF e a situação em 2026
- 7. 2021: a paralisação que não pegou
- 8. O que mudou para cada elo da cadeia
- 9. Lições operacionais e checklist
- 10. Perguntas frequentes
Entre 21 e 31 de maio de 2018, a paralisação dos caminhoneiros esvaziou postos, aeroportos e gôndolas. O IBGE registrou queda de 10,9% na produção industrial de maio, a pior desde dezembro de 2008, e o Ministério da Fazenda estimou o custo em cerca de R$ 15 bilhões, ou 0,2% do PIB.
Para encerrar o movimento, o governo cortou R$ 0,46 no litro do diesel e editou três medidas provisórias. A mais duradoura, a MP 832/2018, virou a Lei 13.703/2018, que criou o piso mínimo de frete. Oito anos depois, a lei foi endurecida pela Lei 15.485/2026, e as ações que a questionam no STF ainda aguardam julgamento de mérito.
1. O estopim: diesel em alta e uma política de preços que mudava quase todo dia
Para entender por que milhares de caminhões estacionaram nos acostamentos em maio de 2018, é preciso voltar a 3 de julho de 2017. Naquela data, a Petrobras, então presidida por Pedro Parente, passou a reajustar os preços da gasolina e do diesel nas refinarias com frequência muito maior, acompanhando de perto a cotação internacional do petróleo e o câmbio. Na prática, o preço do diesel deixou de mudar poucas vezes por ano e passou a oscilar quase diariamente.
O problema é que o vento externo soprou na direção errada. Entre meados de 2017 e maio de 2018, o petróleo subiu no mercado internacional e o real se desvalorizou frente ao dólar. Um levantamento divulgado na véspera da greve, com base em dados da ANP, apontou que o litro do diesel nas refinarias, sem impostos, acumulou alta de cerca de 56,5% entre 3 de julho de 2017 e 22 de maio de 2018, passando de R$ 1,50 para R$ 2,35, ao longo de 121 reajustes.
Para o transportador autônomo, o diesel é o maior item do custo variável da viagem. Quem fechava um frete na segunda-feira não tinha certeza de quanto pagaria no posto na sexta. Some-se a isso um mercado de frete que analistas do setor descreviam como sobreofertado de caminhões e uma economia que ainda se recuperava da recessão de 2015 e 2016. O resultado foi uma margem espremida dos dois lados: custo subindo e preço do frete sem acompanhar.
As pautas que chegaram às rodovias eram, em essência, três: previsibilidade e redução do preço do diesel, fim da cobrança de pedágio sobre eixos suspensos de caminhões vazios e um valor mínimo para o frete. As três acabariam atendidas, de alguma forma, no acordo que encerrou a paralisação.
Quem quiser acompanhar hoje a variável que disparou a crise pode consultar a série semanal de preços da ANP. O artigo como usar os preços oficiais de diesel da ANP na precificação de frete mostra como transformar esse dado em custo por quilômetro.
2. Cronologia: os dias em que o Brasil parou
A paralisação começou numa segunda-feira, 21 de maio de 2018, com caminhoneiros estacionando nos acostamentos e bloqueando parcialmente rodovias em vários estados. Diferente de protestos anteriores, o movimento se espalhou rapidamente, organizado em boa parte por grupos de mensagens no celular, sem uma liderança única capaz de negociar por todos. Essa característica explica por que acordos assinados com entidades do setor não bastaram para esvaziar as estradas.
| Data (2018) | O que aconteceu |
|---|---|
| 21/05 (seg) | Início da paralisação, com caminhões parados em rodovias de diversos estados. |
| 23/05 (qua) | A Petrobras anuncia redução de 10% no diesel nas refinarias (cerca de R$ 0,23 por litro) e congelamento por 15 dias. Os caminhoneiros consideram insuficiente. |
| 24/05 (qui) | Relatório da Infraero aponta ao menos três aeroportos sem combustível. À noite, governo e entidades assinam um primeiro acordo, que não esvazia as estradas. |
| 25/05 (sex) | O Decreto 9.382/2018 autoriza o emprego das Forças Armadas em Garantia da Lei e da Ordem para desobstruir vias federais até 4 de junho. O querosene de aviação acaba no aeroporto de Brasília. |
| 27/05 (dom) | Após mais de 12 horas de reunião, o presidente Michel Temer anuncia o pacote: redução de R$ 0,46 no diesel por 60 dias, piso mínimo de frete, isenção de pedágio sobre eixo suspenso e cota de frete da Conab. As MPs 831, 832 e 833 são editadas na mesma data. |
| 28/05 (seg) | A Abcam confirma a assinatura do acordo e pede o fim da paralisação. O movimento começa a perder força, mas bloqueios persistem em vários pontos. |
| 30/05 (qua) | Publicada a MP 838/2018, que cria a subvenção ao diesel de até R$ 0,30 por litro, limitada a R$ 9,5 bilhões, e o Decreto 9.392/2018, que regulamenta a primeira etapa do subsídio. |
| 31/05 (qui) | Pela primeira vez desde 21 de maio, a PRF não registra pontos de aglomeração nem anormalidade no fluxo das estradas por volta do meio-dia. O governo anuncia o retorno à normalidade. |
| 01/06 (sex) | Pedro Parente entrega carta de demissão da presidência da Petrobras. |
A duração varia conforme a fonte: há quem conte dez dias, de 21 a 30 de maio, e quem conte onze, até 31 de maio, quando as rodovias federais amanheceram sem bloqueios. Os efeitos, porém, se estenderam por semanas, porque o reabastecimento de postos, granjas, indústrias e supermercados não acontece no mesmo dia em que o último caminhão volta a rodar.
3. O país sem diesel: o que faltou e quanto custou
A greve de 2018 funcionou como um teste de estresse involuntário da matriz de transporte brasileira. Num país em que a maior parte das cargas anda sobre pneus, bastaram poucos dias para que a falta de caminhões se transformasse em falta de quase tudo.
Combustível e aeroportos
Postos de combustível foram os primeiros a sentir. Filas se formaram nas cidades e muitos postos simplesmente fecharam por falta de produto. Nos aeroportos, o querosene de aviação também depende de entrega rodoviária. Em 24 de maio, quarto dia da paralisação, um relatório da Infraero citado pela Agência Brasil apontava ao menos três aeroportos da rede sem combustível, São José dos Campos, Ilhéus e Carajás, e outros nove com reserva para no máximo mais um dia. Em Brasília, o estoque se esgotou na manhã de 25 de maio, e 98 voos foram cancelados até o meio-dia do dia seguinte, quando quatro caminhões-tanque com cerca de 240 mil litros chegaram ao terminal.
Alimentos e agropecuária
A nota técnica do Ipea sobre os impactos iniciais da greve no setor agropecuário, publicada na Carta de Conjuntura nº 39 (2º trimestre de 2018), dá a dimensão das perdas, com base em dados da CNA e de associações setoriais:
- Leite: cinco dias de interrupção completa da coleta pelos maiores laticínios levaram ao descarte de 280 milhões de litros, cerca de R$ 360 milhões.
- Aves e suínos: segundo a ABPA, 64 milhões de aves adultas e pintainhos morreram por falta de ração, com prejuízo estimado em R$ 3 bilhões. O setor deixou de embarcar 120 mil toneladas de carnes de aves e suínos.
- Frutas e hortaliças: perdas estimadas em R$ 920 milhões, das quais R$ 570 milhões só no Vale do São Francisco, segundo a Abrafrutas.
- Carne bovina: cerca de 40 mil toneladas deixaram de ser exportadas durante a greve, o equivalente a US$ 170 milhões.
Indústria, inflação e PIB
Os indicadores oficiais confirmaram o tamanho do choque. A tabela abaixo reúne os números divulgados pelos próprios órgãos ou por eles atribuídos à paralisação:
| Indicador | Resultado | Fonte e data |
|---|---|---|
| Produção industrial (maio/2018 x abril) | Queda de 10,9%, a pior desde dezembro de 2008 (-11,2%) | IBGE, PIM-PF, divulgada em 4/7/2018 |
| Bens de consumo duráveis (maio/2018) | Queda de 27,4% | IBGE, PIM-PF, julho de 2018 |
| IPCA de junho de 2018 | 1,26%, maior taxa para o mês desde 1995 | IBGE, divulgado em julho de 2018 |
| Custo estimado da paralisação | Cerca de R$ 15 bilhões, ou 0,2% do PIB (estimativa preliminar) | Ministério da Fazenda, junho de 2018 |
| Projeção do PIB de 2018 | Revisada de 2,6% para 1,6%, citando os efeitos da greve entre os fatores | Banco Central, Relatório de Inflação, 28/6/2018 |
| PIB do 2º trimestre de 2018 | Alta de apenas 0,2% sobre o trimestre anterior; indústria caiu 0,6% | IBGE, Contas Nacionais, 31/8/2018 |
Dois cuidados na leitura desses números. Primeiro, a própria Fazenda tratou os R$ 15 bilhões como estimativa preliminar e ponderou, à época, que a economia já vinha perdendo ritmo antes da greve. Segundo, parte da produção perdida em maio foi recuperada em junho, como observaram analistas do período. Ainda assim, não há dúvida de que dez dias de estradas paradas deixaram marca visível no PIB, na inflação e no caixa de milhares de empresas.
4. O acordo: R$ 0,46 no litro, três MPs e uma subvenção bilionária
O pacote anunciado na noite de 27 de maio tinha cinco pontos. O mais visível era o diesel: redução de R$ 0,46 por litro na bomba, mantida por 60 dias e depois com reajustes mensais. Segundo a composição informada pelo governo à época, R$ 0,16 viriam da eliminação da Cide (R$ 0,05) e da redução do PIS/Cofins (R$ 0,11), e os R$ 0,30 restantes seriam bancados pelo Tesouro por meio de subvenção à Petrobras e aos importadores.
A subvenção foi formalizada pela MP 838, de 30 de maio de 2018, convertida depois na Lei 13.723/2018. O texto previa R$ 0,07 por litro até 7 de junho e até R$ 0,30 por litro a partir de 8 de junho, limitado a 31 de dezembro de 2018 e a um valor total de R$ 9,5 bilhões.
As demais concessões vieram em três medidas provisórias editadas no próprio dia 27 de maio. Todas viraram lei em agosto de 2018:
| Medida provisória | Convertida em | O que estabelece |
|---|---|---|
| MP 831/2018 | Lei 13.713, de 24/8/2018 | A Conab deve contratar, com dispensa de licitação, no mínimo 30% da sua demanda anual de frete com cooperativas e associações de transportadores autônomos. |
| MP 832/2018 | Lei 13.703, de 8/8/2018 | Institui a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, com pisos por quilômetro e por eixo carregado publicados pela ANTT. |
| MP 833/2018 | Lei 13.711, de 24/8/2018 | Isenta de pedágio, em todo o território nacional, os eixos suspensos de veículos de carga que circularem vazios, inclusive em rodovias concedidas. |
| MP 838/2018 | Lei 13.723/2018 | Subvenção econômica à comercialização de óleo diesel, até R$ 0,30 por litro e R$ 9,5 bilhões no total, até 31/12/2018. |
Note um detalhe da MP 831: o texto original falava em contratar "até" 30% da demanda da Conab com autônomos. Na conversão, o Congresso inverteu a lógica, e a Lei 13.713 passou a exigir "no mínimo" 30%. É um bom exemplo de como o texto final de uma lei pode ir além do que foi negociado na mesa.
A subvenção ao diesel acabou no fim de 2018, como previsto. A isenção sobre o eixo suspenso e a cota da Conab continuam no ordenamento. Mas foi a MP 832 que mudou de forma permanente a relação entre embarcadores, transportadoras e motoristas.
5. Lei 13.703/2018: a tabela do frete nasce da greve
A Lei 13.703, de 8 de agosto de 2018, determinou que o transporte rodoviário remunerado de cargas obedeça a pisos mínimos de frete fixados pela ANTT, por quilômetro rodado e por eixo carregado, considerando a distância e o tipo de carga: geral, granel, frigorificada, perigosa e neogranel, entre outras categorias definidas pela agência. A primeira tabela saiu ainda em maio de 2018, pela Resolução ANTT 5.820/2018, e desde então passou por revisões metodológicas e reajustes periódicos.
O desenho original da lei tinha três engrenagens principais:
- Natureza vinculante: desrespeitar o piso sujeitava o contratante a indenizar o transportador em duas vezes a diferença entre o valor pago e o devido, para infrações a partir de 20 de julho de 2018.
- Calendário fixo: a ANTT publicaria os pisos até 20 de janeiro e 20 de julho de cada ano.
- Gatilho do diesel: oscilação superior a 10% no preço do diesel obrigava a publicação de nova tabela. Em 2022, a Lei 14.445 reduziu esse gatilho para 5%.
Para entender o cálculo na prática, com os coeficientes de deslocamento e de carga e descarga, veja o guia completo de cálculo do piso mínimo de frete da ANTT. O efeito do gatilho do diesel sobre a tabela está detalhado em como o diesel e o IPCA reajustam a tabela da ANTT em 2026.
2026: a lei ganha dentes
Durante anos, a crítica dos caminhoneiros foi a de que a tabela "não pegava": existia no papel, mas a fiscalização era insuficiente e a judicialização criava insegurança. Em 2026, o governo respondeu com a MP 1.343, de 19 de março de 2026, convertida na Lei 15.485, de 5 de agosto de 2026, que reescreveu partes importantes da Lei 13.703. Pelo texto consolidado publicado no Planalto:
- CIOT para toda operação remunerada: o art. 7º passou a exigir que toda operação de transporte rodoviário remunerado de cargas seja previamente registrada por meio do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), com o valor do frete contratado, observado o piso mínimo.
- Reajuste rápido: com oscilação igual ou superior a 5% no preço dos combustíveis ao consumidor considerados na metodologia, a ANTT deve publicar o reajuste dos pisos em até 3 dias úteis.
- Nova indenização: o descumprimento sujeita o infrator a indenizar o transportador em até duas vezes o valor do piso mínimo aplicável à operação, sem prejuízo das sanções administrativas.
- Sanções sobre o RNTRC: suspensão do registro em caso de reincidência e cancelamento em caso de contumácia na contratação abaixo do piso.
- Multa majorada: até R$ 1 milhão para quem contratar ou subcontratar abaixo do piso de forma reincidente, conforme regulamento da ANTT.
- Anúncios e plataformas: quem anunciar, ofertar, intermediar ou publicar frete abaixo do piso também fica sujeito às sanções, e a ANTT passa a fiscalizar expressamente ofertas em meio físico, eletrônico ou digital.
O impacto operacional desse novo desenho, especialmente o bloqueio do registro do CIOT quando o valor está abaixo do piso, é tema de por que o frete abaixo do piso é bloqueado antes do CIOT em 2026 e de CIOT para todos em 2026: o que mudou.
6. As ADIs no STF: oito anos de espera pelo mérito
A tabela mal tinha sido publicada quando chegou ao Supremo Tribunal Federal. Três ações diretas de inconstitucionalidade passaram a tramitar em conjunto, sob relatoria do ministro Luiz Fux:
| Ação | Autor | Principal argumento |
|---|---|---|
| ADI 5956 | ATR Brasil (Associação do Transporte Rodoviário de Carga do Brasil) | Proposta em 7 de junho de 2018 contra a MP 832, depois estendida à Lei 13.703 e à resolução da ANTT. Sustenta violação à livre iniciativa e à livre concorrência. |
| ADI 5959 | CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) | Questiona o tabelamento de preços e o impacto sobre o custo do escoamento da produção agropecuária. |
| ADI 5964 | CNI (Confederação Nacional da Indústria) | Questiona a constitucionalidade da fixação de preços mínimos de frete pelo Estado. |
A trajetória processual foi marcada por idas e vindas:
- 2018: o relator determinou a suspensão, em todo o país, dos processos judiciais que discutem a matéria, para evitar decisões conflitantes, e conduziu audiência pública em agosto. Em dezembro, a pedido da CNA, suspendeu as multas da ANTT pelo descumprimento da tabela e, cerca de uma semana depois, em 12 de dezembro, revogou a própria liminar a pedido da AGU. As multas voltaram a valer até o julgamento do mérito.
- 2020: as ações chegaram a ser pautadas para o Plenário em 19 de fevereiro, mas foram retiradas de pauta a pedido da AGU, e o relator marcou audiência de conciliação entre as partes em 10 de março.
- 2026: em julho, a ministra Cármen Lúcia cassou uma decisão da Justiça Federal de Curitiba que havia suspendido uma penalidade da ANTT baseada no piso, por entender que ela contrariava a decisão cautelar da ADI 5956, e determinou a suspensão daquele processo até o julgamento final.
Até a data desta publicação, não localizamos julgamento de mérito das ADIs 5956, 5959 e 5964 pelo Plenário do STF. Na prática, a lei está em vigor, a ANTT fiscaliza e aplica multas, e os processos sobre o tema em outras instâncias seguem, em regra, suspensos. Como a pauta do Supremo pode mudar, confira o andamento atualizado no portal do STF antes de tomar decisões jurídicas com base neste texto.
7. 2021: a paralisação que não pegou
A memória de 2018 alimentou novas convocações. A mais lembrada foi a paralisação marcada para 1º de novembro de 2021, motivada de novo pela alta dos combustíveis. Uma pesquisa da plataforma Fretebras com 2.023 caminhoneiros, divulgada dias antes, indicava que 59% eram a favor da paralisação e 54% prometiam participar.
No dia, porém, o movimento ocorreu de forma pontual. Segundo a cobertura da Agência Estado, os bloqueios prometidos para repetir 2018 não se concretizaram, e a adesão ficou concentrada em parte dos autônomos, sem participação de motoristas celetistas e das empresas transportadoras. Antes disso, em setembro de 2021, bloqueios ligados às manifestações de 7 de Setembro chegaram a pontos de concentração em 14 estados, mas com interdição em apenas cinco, segundo o Ministério da Infraestrutura, e entidades como a NTC&Logística afirmaram que aquele movimento tinha natureza política, e não setorial.
Por que 2021 não repetiu 2018? Não há uma explicação oficial única, mas alguns fatores aparecem com frequência na cobertura do período:
- Pautas divididas: parte das convocações misturava reivindicações econômicas e políticas, o que afastou entidades e empresas.
- Sem adesão das transportadoras: em novembro de 2021, a interrupção ficou concentrada em parte dos autônomos, sem celetistas nem empresas.
- Resposta institucional mais rápida: após 2018, decisões judiciais e a atuação da PRF passaram a coibir bloqueios de rodovias com mais agilidade.
- Custo de parar: para o autônomo endividado, ficar dias sem rodar pesa mais quando a perspectiva de ganho concreto é incerta.
A lição para o mercado é dupla: paralisações amplas são raras e dependem de uma combinação específica de fatores, mas a pauta de fundo, custo do diesel e remuneração do frete, nunca saiu da mesa.
8. O que mudou para transportadoras, embarcadores e motoristas
A greve terminou em 2018, mas o arcabouço que ela gerou segue moldando o dia a dia do frete rodoviário. O quadro abaixo resume o que cada elo da cadeia precisa observar hoje:
| Elo | O que mudou desde 2018 | Atenção em 2026 |
|---|---|---|
| Embarcador / contratante | Passou a responder pelo pagamento de frete abaixo do piso, com indenização ao transportador e multa da ANTT. | Indenização de até 2 vezes o piso, multa majorada na reincidência e responsabilidade também por anúncios de frete abaixo do piso. |
| Transportadora (ETC) | Ao subcontratar autônomos, precisa respeitar o piso e registrar a operação. | Suspensão ou cancelamento do RNTRC por reincidência ou contumácia na contratação abaixo do piso. |
| Motorista autônomo (TAC) | Ganhou um referencial legal de remuneração mínima e isenção de pedágio sobre eixo suspenso quando vazio. | CIOT obrigatório em toda operação remunerada, com o valor do frete registrado, o que facilita cobrar a diferença. |
| Plataformas e intermediadores | Antes fora do foco da fiscalização. | A ANTT fiscaliza ofertas e intermediações em meio digital; quem anuncia abaixo do piso responde. |
| Cooperativas de autônomos | Reserva mínima de 30% da demanda anual de frete da Conab, com dispensa de licitação. | Requisitos de contratação seguem o regulamento da Conab e o preço das tabelas referenciais da companhia. |
Outro efeito, menos visível, foi cultural: a greve mostrou que o custo do frete não é uma variável que se negocia apenas no balcão. Ele passou a depender de uma tabela oficial, de um registro eletrônico prévio e de uma fiscalização que, desde 2026, alcança também os anúncios. Para quem contrata, isso significa tratar a conformidade do frete como parte do processo de compra, e não como um detalhe resolvido depois da viagem. E não é só o piso: o vale-pedágio obrigatório continua sendo responsabilidade do embarcador e deve vir separado do valor do frete.
9. Lições operacionais: como se preparar para a próxima interrupção
Paralisações nacionais são raras, mas interrupções logísticas não: enchentes, deslizamentos, bloqueios regionais, falta pontual de diesel e greves em portos acontecem todos os anos. As empresas que atravessaram 2018 com menos dano tinham, em geral, três coisas em comum: sabiam quanto tempo aguentavam sem reposição, tinham alternativas mapeadas e enxergavam a operação em tempo real.
Plano de contingência de abastecimento
O primeiro gargalo de 2018 foi o combustível da própria frota. Empresas com tanque próprio e contrato com distribuidora conseguiram manter parte da operação. Um bom plano define o estoque mínimo de diesel em dias de operação, os postos alternativos por rota, a prioridade de abastecimento por tipo de carga, como perecíveis, medicamentos e insumos críticos, e quem tem autoridade para acionar o plano.
Estoque estratégico, não estoque cego
O just-in-time extremo foi o que fez granjas ficarem sem ração em poucos dias: segundo o Ipea, o produtor era abastecido, em média, a cada três a cinco dias. O antídoto não é encher armazéns de tudo, e sim calcular o estoque de segurança dos itens cuja falta para a operação inteira, considerando o tempo real de reposição em cenário de crise, e não o tempo de reposição em dia normal.
Diversificação modal
A dependência do caminhão foi exposta em 2018. Cabotagem, ferrovia e hidrovia não substituem o rodoviário de uma semana para outra, mas contratos já homologados com operadores de outros modais permitem desviar parte do fluxo em uma crise. A diversificação também vale dentro do rodoviário: base de transportadores e autônomos cadastrados e regulares, em regiões diferentes, reduz o risco de toda a capacidade parar de uma vez.
- Mapeie a autonomia: quantos dias cada unidade opera sem reposição de combustível, matéria-prima e embalagem.
- Defina o estoque de segurança dos itens críticos com base no tempo de reposição em crise, não no prazo usual do fornecedor.
- Garanta diesel próprio ou contratado para a frota essencial, com postos alternativos mapeados por rota.
- Priorize cargas: deixe definido o que sai primeiro, como perecíveis, saúde e insumos que param linhas de produção.
- Homologue alternativas modais (cabotagem, ferrovia, hidrovia) e transportadoras em regiões diferentes antes da crise.
- Revise contratos de frete com cláusulas de força maior, reajuste por diesel e prazo de entrega em situação excepcional.
- Precifique com o piso vigente: após choques de diesel, a ANTT pode reajustar a tabela em poucos dias; frete fechado antes pode ficar abaixo do piso.
- Registre CIOT e vale-pedágio corretamente mesmo em operação emergencial; a crise não suspende a fiscalização.
- Monitore em tempo real: bloqueios, preço do diesel por região e posição da frota em um único painel.
- Comunique cedo: clientes informados sobre atrasos prováveis toleram mais do que clientes surpreendidos.
Parte desse controle pode ser automatizada. O Geodagio expõe, por API, o cálculo e a validação do piso mínimo da ANTT (/api/v1/freight-floor/calculate e /api/v1/freight-floor/validate), a consulta dos preços mais recentes de combustível da ANP (/api/v1/fuel/prices/latest) e a pré-validação do CIOT (/api/v1/ciot/prevalidate). Integradas ao TMS, essas verificações ajudam a manter o frete dentro da regra mesmo quando a tabela muda às pressas.
Perguntas Frequentes sobre a Greve dos Caminhoneiros de 2018
Fontes
Reportagem apurada e verificada em outubro de 2026. Valores atribuídos a associações setoriais são estimativas dessas entidades, citadas pelos órgãos indicados.
- Presidência da República — Lei nº 13.703/2018 (Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas), texto consolidado com as alterações das Leis 14.445/2022 e 15.485/2026.
- Presidência da República — Lei nº 15.485, de 5 de agosto de 2026 (conversão da MP 1.343/2026).
- Presidência da República — Medida Provisória nº 832, de 27 de maio de 2018.
- Presidência da República — Lei nº 13.713/2018 (conversão da MP 831/2018, frete da Conab).
- Presidência da República — Lei nº 13.711/2018 (conversão da MP 833/2018, eixo suspenso).
- Presidência da República — Medida Provisória nº 838/2018 (subvenção ao óleo diesel).
- Presidência da República — Decreto nº 9.382/2018 (Garantia da Lei e da Ordem para desobstrução de vias).
- Agência de Notícias IBGE — Greve dos caminhoneiros leva indústria a ter a maior queda desde 2008 (julho de 2018).
- Agência de Notícias IBGE — IPCA foi de 1,26% em junho (julho de 2018).
- Ipea — Carta de Conjuntura nº 39, nota técnica: Impactos iniciais da greve dos caminhoneiros no setor agropecuário (2018).
- Agência Brasil — Relatório da Infraero diz que três aeroportos estão sem combustível (maio de 2018).
- Agência Brasil — Greve dos caminhoneiros fez indústria recuar 10,9% de abril para maio (julho de 2018).
- Poder360 — Banco Central reduz expectativa de crescimento para 1,6% em 2018 (Relatório de Inflação, junho de 2018).
- Monitor Mercantil — Estimativa do Ministério da Fazenda de R$ 15 bilhões (junho de 2018).
- A União — Associação de caminhoneiros confirma acordo com governo e pede fim da paralisação (maio de 2018).
- Poder360 — Petrobras reduzirá preço do diesel em 10% por 15 dias (maio de 2018).
- Diário do Transporte — Em menos de um ano, preço do diesel subiu 121 vezes e acumulou alta de 56,5% (maio de 2018, com dados da ANP).
- Notícias Agrícolas / Reuters — Governo diz que país caminha para normalidade com fim da greve dos caminhoneiros (31 de maio de 2018).
- Diário do Transporte — Ministro do STF revoga decisão que suspendia multas por descumprimento da tabela do frete (dezembro de 2018).
- Supremo Tribunal Federal — Julgamento da tabela do frete é adiado a pedido da AGU para audiência de conciliação (2020).
- Revista Caminhoneiro — STF derruba decisão que barrava multa da ANTT pelo piso mínimo (julho de 2026).
- CUT — Pesquisa Fretebras sobre a paralisação de 1º de novembro de 2021.
- Poder360 — PRF libera vias bloqueadas por caminhoneiros; 5 estados têm interdições (setembro de 2021).
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